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Estudos Ambientais

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Os efeitos do aquecimento global vão além da temperatura

Os cientistas que estudam o aquecimento global se dividem entre os catastróficos, que prevêem mudanças drásticas nas temperaturas do planeta nos próximos anos, e os que acham que estas mudanças serão mais amenas, e que trarão diversos benefícios à humanidade. Uma coisa é certa: as emissões de gases causadores do efeito estufa estão causando o aumento da temperatura no planeta, mas o que não existe consenso é qual o efeito dessas mudanças no planeta.

Uma linha de pesquisa que possui visão antropocêntrica conclui que os efeitos do aquecimento global trarão diversos benefícios à humanidade. Com o aumento da temperatura não existirão mais mortes causadas pelas baixas temperaturas, e seus efeitos no derretimento da calota polar vai gerar uma economia de combustível inacreditável, porque vai encurtar os caminhos da navegação. Entretanto, quando se pensa nos efeitos do aquecimento global nos ecossistemas do planeta verifica-se que existem diversas alterações nas relações entre os seres vivos e destes com o meio ambiente, que poderão causar a extinção de espécies e a transformações de regiões, hoje ocupadas por florestas, em regiões áridas.

Os efeitos do aquecimento global sobre os ecossistemas são imprevisíveis, alterando drasticamente as relações entre as espécies e, conseqüentemente, podendo causar a extinção delas caso não tenham tempo de se adaptar a estas mudanças no clima. Segundo FLANNERY (2007), um caso específico deste tipo de alteração das relações entre as espécies envolve as lagartas da traça de inverno (Operophtera brumata). Sua única fonte de alimentos são as folhas tenras do carvalho, tão macias e cheias de nutrientes que são consumidas em poucas semanas. O problema é que os carvalhos e mariposas usam sinais diferentes para avisar a chegada da primavera. É o aumento da temperatura que faz os ovos das mariposas chocarem, mas os carvalhos contam os dias curtos e frios do inverno para saber quando suas folhas devem brotar. A primavera está mais quente do que há 25 anos, mas o número de dias frios de inverno não mudou. E, como resultado disso, as mariposas do inverno agora nascem três semanas antes de os carvalhos brotarem suas primeiras folhas. E, como as lagartas só conseguem sobreviver de dois a três dias sem comida, existe agora um número muito menor delas e aquelas que sobreviveram crescem mais rápido porque existe menos competição pela comida, o que significa que os pássaros ficam com menos tempo para encontrá-las.

O Planeta Terra é um sistema fechado que tem com fonte de energia o Sol. A energia solar incidente no planeta é absorvida e transformada em matéria pelos produtores primários. Os consumidores primários por sua vez, se alimentam dos produtores primários e os consumidores secundários dos consumidores primários e assim por diante até chegar ao topo da cadeia alimentar. Nessa transferência de matéria, somente 10% da energia é repassada de um nível trófico ao outro, o restante é perdido. Os decompositores são os responsáveis pela imobilização final da energia transformada em matéria. Desta forma, toda a energia proveniente do sistema solar é perdida na transferência de matéria entre os níveis tróficos, ou fica retida em organismos vivos ou é imobilizada pelos organismos decompositores.

Com a remoção dos ecossistemas pelo homem, realizada principalmente pela remoção das florestas, toda a energia em forma de matéria nestas florestas é imediatamente devolvida ao meio ambiente. Da mesma forma, a queima de combustíveis fósseis retorna à atmosfera a energia que foi acumulada ao longo de milhões de anos. A interferência do homem sobre o planeta está causando um distúrbio que resulta no aquecimento global.

A única forma de frear o aquecimento global é a imobilização desta energia novamente e a paralisação imediata de utilização de combustíveis fósseis e da remoção de florestas. Será necessário o homem interferir inversamente ao que tem feito nos últimos séculos, ou seja, ao invés de emitir energia ele terá que fixar energia através do restabelecimento dos ecossistemas removidos.

Na década de 50, pesquisadores encontraram na Amazônia solo em bolsões ricos e férteis, chamada de “terra preta de índio”. A terra preta é encontrada apenas em locais onde havia pessoas, o que significa que se trata de solo artificial, resultante da atividade humana anterior à chegada dos europeus. Seu ingrediente mais intrigante é o carvão vegetal, obtido da queima de plantas e outros detritos orgânicos em baixas temperaturas – uma quantidade enorme do elemento que dá a cor escura a esse tipo de terra. A mera adição de carvão moído e fumaça líquida a solos tropicais normalmente ruins provoca um “crescimento exponencial” na população microbiana – dando início ao ecossistema subterrâneo essencial à fertilidade (Revista National Geographic, 2008). A utilização de carvão para a recuperação de solos tropicais pode ser uma forma de imobilização de energia e ao mesmo tempo trazer benefícios para a população que vive nestas áreas, normalmente as mais escassas do planeta em alimentos.

Portanto, o aquecimento global é um efeito causado pelo homem e que está trazendo diversos impactos negativos ao meio ambiente, principalmente com relação à eliminação de ecossistemas e perda da biodiversidade. O aquecimento global é gerado em razão de um desequilíbrio no balanço energético do planeta, e só poderá ser combatido através da adoção de medidas para reequilibrar o fluxo de energia no sistema, com a utilização de combustíveis renováveis e através de soluções que tenham como objetivo a absorção e imobilização da energia gerada no passado.

Eng.º Florestal Denis Campos Meyer
São Paulo, 01 de Setembro, de 2008